27 de abril de 2017

O DESASTRE ANUNCIADO. Impossível ignorar o silêncio dos apoiantes de Trump, cada vez mais ensurdecedor. São tantas as asneiras, a incompetência, as mudanças de opinião, as mentiras, a ignorância mais básica sobre tudo o que importa e os exemplos de indigência mental que se torna cada vez mais difícil defendê-lo. O muro foi adiado para as calendas. A política de fronteiras e a ordem executiva que penaliza as cidades que não cumprem as exigências federais em matéria de imigração esbarraram nos tribunais. O NAFTA, Tratado Norte-Americano de Livre Comércio com o México e Canadá que Trump em tempos considerou o pior acordo comercial da história, era para rasgar, agora é para ser renegociado. As despesas com as constantes deslocações de Trump ao seu clube privado na Florida, inexplicavelmente promovido — a custo zero — nalguns sites do governo, crescem diariamente sem que se perceba por que serão os contribuintes a pagar a conta. Os negócios da família montaram escritório na Casa Branca. A China passou de inimigo a abater a amigo a estimar (há por lá negócios da família para cuidar). A NATO era obsoleta, mas agora, por obra e graça ninguém sabe de quê, deixou de ser. A Rússia era amiga, agora ninguém sabe o que é. A América estava primeiro, mas três meses bastaram para atacar a Síria e o Afeganistão, a Coreia do Norte está no radar, e a aviação russa passeia-se perigosamente pelo Alasca. Para quem prometeu virar do avesso a política externa de Obama e erradicar o autodenominado Estado Islâmico (nada foi feito até agora), no mínimo é embaraçoso. Graças à incompetência dos que tentaram acabar com ele oferecendo em troca uma alternativa inventada à pressa (e bastante piorada), o tão odiado Obamacare mantém-se em vigor. As declarações de impostos do Presidente eram para ser mostradas aos eleitores, mas por razões que não foram explicadas já não vão ser mostradas. Sondagens recentes revelam que Trump é o Presidente mais impopular de sempre. Apenas 4% dos norte-americanos o considera honesto. Leram bem: quatro por cento (Obama chegou a ter 74, Bush filho 62, Clinton 61). A suspeita de conluio entre importantes figuras da campanha de Trump e a administração russa, que ainda há uns meses o Presidente elogiava (Trump nunca escondeu o seu fascínio por ditadores e aparentados), cresce de dia para dia. Sim, o Presidente conseguiu nomear o juiz Neil Gorsuch para o Supremo Tribunal, embora a sua base de apoio tivesse que recorrer a um expediente controverso. Para 100 dias de Governo, que agora se assinalam, é um desastre sem precedentes. Mas o pior pode estar para vir. Afinal, Trump está sempre a demonstrar que pior é sempre possível.

7 de abril de 2017

MAIS NOTÍCIAS DO MANICÓMIO. Nunca dei um centavo por Trump e pela malta que o rodeia. Mas devo confessar que a pantomina em cena excedeu as minhas piores previsões. Para ajudar à barafunda, o luso-descendente Devin Nunes prestou-se ao triste papel de moço de recados para manter vivo um nado morto (a inventona das escutas de Obama a Trump), a seguir quis-nos fazer crer que prestou um grande serviço à pátria, no dia seguinte pediu desculpas aos parceiros da comissão que investiga a intromissão russa nas Presidenciais, finalmente percebeu que perdeu a confiança dos pares e agiu em conformidade. Tudo isto para nos distrair do essencial: a investigação sobre o eventual conluio entre a campanha de Trump e a administração russa, cuja suspeita aumenta de dia para dia. Depois há um general cagarolas disposto a contar o que sabe se lhe salvarem a pele, dezenas de apartamentos vendidos a russos suspeitos de subtrair pipas de massa aos seus conterrâneos, a humilhação do Presidente e respectiva família política por não terem conseguido substituir o Obamacare por um sistema pior, e outras histórias igualmente fedorentas. Somado ao cada vez maior atrevimento da Coreia do Norte e ao pesadelo da Síria, que Trump decidiu bombardear com o mesmíssimo pretexto com que há quatro anos defendeu o contrário (e cujas consequências ninguém, até agora, conseguiu antecipar), eis que estão criadas as condições para o descrédito total de uma democracia em tempos exemplar. Felizmente que o tão odiado «sistema» funciona, pelo que Trump virá a ser, quando muito, uma espécie de Putin dos pequeninos.

23 de março de 2017

NOTÍCIAS DO MANICÓMIO. Se não fosse grave, a história das alegadas escutas do então Presidente Obama ao então candidato Trump seria hilariante. Como não bastasse a ausência da mais leve evidência de que tal tenha ocorrido, como se percebeu desde o início, a administração Trump inventou que os serviços secretos britânicos foram os operacionais da alegada patranha, e como é sabido, a coisa correu mal. No dia seguinte a administração Trump recuou, desfez-se em desculpas, prometeu portar-se bem dali em diante — uma cena penosa de se ver. Para cúmulo, o Presidente deitou ainda mais lenha na fogueira, dizendo que se limitou a citar a Fox News, pelo que se algo esteve mal foi a Fox, não ele. O Presidente decide com base no que dizem os media? Obviamente que a desculpa ou é estúpida, ou o Presidente decide mesmo com base no que dizem os media em que ele confia, e nesse caso seria inacreditável e ainda mais estúpido. Convém lembrar que na origem das alegadas escutas que Trump garantiu existirem estiveram duas fontes que o Presidente tem como credíveis: o Breitbart News, site de extrema-direita que se notabilizou pelas fake news (e deu ao governo o sinistro Stephen Bannon), e a Fox News, que dispensa apresentações, embora no caso em concreto até nem tenha estado mal (o Presidente tomou como um facto a opinião de um comentador entretanto despedido). Juntando o mal-amanhado episódio a tantos outros igualmente risíveis, impõe-se uma pergunta: até onde irá o delírio de Trump? Quantos sapos mais estará o Partido Republicano disposto a engolir para lhe manter o apoio? Se os republicanos tiveram razões para tentar impedir que Trump fosse nomeado candidato presidencial, mais razões têm agora para lhe travar a espiral de loucura. Quem já não percebeu que a administração Trump é uma bola de neve a rolar para o abismo?

15 de março de 2017

REAL NEWS.

1. Kellyanne Conway, assessora de Trump e propagandista dos negócios da filha do Presidente, sugeriu que pelo menos 20 por cento dos jornalistas que cobriram as presidenciais americanas deviam ser despedidos, alertou para a existência de «factos alternativos» (deu um exemplo com um massacre que nunca existiu depois de já ter atribuído a Obama uma decisão que não tomou), e mais recentemente tentou impingir-nos a ideia de que o ex-presidente espiou Trump com um microondas.

2. Steve Bannon, especialista em fake news e ao que dizem responsável pela estratégia da Casa Branca, comentou que os media deviam calar-se, e posteriormente garantiu que a relação entre os media e a Casa Branca «só vai piorar» (dois dias depois CNN, BBC e New York Times seriam proibidos de aceder a um briefing na Casa Branca).

3. Lamar Smith, congressista, recomendou aos americanos que ignorem os media e obtenham as notícias directamente do Presidente, pois só assim terão «a verdade nua e crua».

4. Donald Trump, Presidente dos EUA, já chamou aos jornalistas tudo o que há de pior. Desonestos, asquerosos, escória, inimigos, lixo, a forma mais baixa de vida, os seres humanos mais desonestos da Terra — eis algumas pérolas de que me lembro.

5. Vale a pena lembrar que os jornalistas visados pelo Presidente trabalham para a CNN, ABC, Associated Press, NBC, Washington Post, New York Times, Politico, Atlantic, New Republican, Los Angeles Times, Financial Times, e a certa altura até para a Fox News, que Trump respeita consoante os dias. Se os media citados não são credíveis (incluindo, vá lá, a Fox News), quais são, então, os media credíveis?

6. Como se percebeu desde a primeira hora, a estratégia de Trump tem sido descredibilizar os media (a última foi acusá-los de serem inimigos do povo americano), até agora razoavelmente bem-sucedida (instalar a dúvida sobre a credibilidade dos media é já uma vitória). Como se verá a seu tempo, não vai durar sempre.

7. Talvez o primeiro sinal de que já viu melhores dias sejam os «factos alternativos», que a administração jurou existirem, mas que os exemplos que foi dando liquidaram logo à nascença (não será por acaso que deixou de falar deles). As baixas causadas pelos media (demissão do conselheiro para a Segurança Nacional e afastamento do procurador-geral da comissão que investiga a interferência russa nas presidenciais) são outro sinal, a que se junta o facto de alguns media de referência terem visto crescer o número de leitores/ouvintes/espectadores, contrariando as recomendações da administração Trump e demonstrando que os leitores/ouvintes/espectadores têm cada vez maior apetência por notícias veiculadas por quem lhes garante maior rigor (leia-se os media tradicionais, mesmo com todos os defeitos).

8. «Factos alternativos» são, evidentemente, mentiras. E não é preciso andar para aí com uma lupa para ver que o Presidente foi, de longe, quem mais beneficiou com os «factos alternativos», para os quais contribui sempre que pode. O Presidente, a extrema-direita e a administração russa, que agora se vira para França e Alemanha, onde há mais trumps para eleger. Não falo de suposições, teorias da conspiração, verdades alternativas. Falo de factos a sério, contra os quais os mandarins de serviço declararam uma guerra que hão-de perder.

23 de fevereiro de 2017

VALE TUDO NOS NEGÓCIOS? Pode não saber mais nada, mas é inegável que Donald Trump foi — talvez ainda seja — um empresário brilhante. Eis o que todos dizem, inclusive quem não votou nele. Como já perceberam, discordo. O alegado brilhantismo de Trump assentou, essencialmente, em três pontos: desastres empresariais que se tornaram em lucrativas falências, fuga (legal, até ver) aos impostos, e muita falta de escrúpulos (3.500 processos judiciais nos últimos 40 anos por falta de pagamento a pequenos empresários, só para dar uma amostra). Práticas que não tornam, para mim, ninguém brilhante, nem sequer respeitável. Como alguns tendem a esquecer e muitos a tolerar, não vale tudo nos negócios. E quando um candidato recusa tornar pública a sua declaração de impostos (uma tradição dos candidatos presidenciais) após ter sido eleito (como prometera fazê-lo durante a campanha), não há como não desconfiar de que algo não vai bem. Somados todos estes factores, a que poderiam juntar-se outros mais, brilhante só no modo como convenceu, e continua a convencer, quem votou nele. Resta saber até quando.

10 de fevereiro de 2017

AVANÇAR ÀS ARRECUAS. Apesar da bazófia e do fogo-de-artifício, o Presidente Trump está a render-se à «realpolitik». A parte má (ou boa, depende de que lado se observa) é que Trump diz hoje uma coisa, no dia seguinte diz outra — e se alguém notar a contradição foi uma invenção dos jornalistas, essa gente desprezível. Dois exemplos só nos últimos dois dias: depois da provocação inicial, os Estados Unidos vão, afinal, respeitar o princípio de uma «China única»; a transferência da embaixada americana de Telavive para Jerusalém vai, afinal, ser estudada «muito seriamente», pois a coisa «não é fácil». É uma espécie de avançar às arrecuas, o que não deixa de ser um avanço — e convenhamos que os recuos têm sido, até ver, melhores que os avanços. O único senão é que isto lhe descobre o que há por debaixo do famoso cabelo: Trump prometeu uma coisa, e está a fazer outra. Para um «não político», que se candidatou contra o que há de pior na política, é obra. E ainda a procissão vai no adro.

26 de janeiro de 2017

PEGAR FOGO AO INCÊNDIO. Reduzir os adversários do Presidente Trump a liberais, socialistas, comunistas, esquerdistas de várias proveniências e minorias de toda a espécie, é tão redutor como dizer-se que os seus apoiantes são da extrema-direita, racistas, xenófobos, misóginos, homofóbicos, supremacistas brancos, membros do Ku Klux Klan. Todas as generalizações são estúpidas, nalguns casos perigosas. Os eleitores de uns e de outros são americanos, que na sua grande maioria votam ora nos democráticos ora nos republicanos — e que o Presidente que nos calhou em sorte tudo tem feito para pôr uns contra os outros. Se a América está primeiro, como prometeu durante a campanha, o Presidente devia cuidar de unir os americanos em vez de tudo fazer para os dividir — fomentando o ódio e a discórdia, disparando contra quem não pensa como ele e se atreve a confrontá-lo com as suas incontáveis mentiras, criando fracturas talvez irremediáveis. Quer-me parecer que tudo isto resulta de ignorância pura e dura, de que Trump já deu mostras para todos os gostos. Mas serve-me de fraco consolo.

20 de janeiro de 2017

TOMAR NOTA. Aldous Huxley publicou, em 1931, Music at Night And Other Essays (Música na noite & outros ensaios na tradução brasileira publicada pela L&PM), excelente volume de ensaios onde se lê a páginas tantas: «Houve um tempo, não muito tempo atrás, no qual o estúpido e o inculto aspiravam a ser considerados inteligente e cultos. A corrente da aspiração mudou sua trajetória. Não é nem um pouco incomum, agora, encontrar pessoas inteligentes e cultas fazendo o melhor que podem para simular estupidez e ocultar o fato de que receberam uma educação. Vinte anos atrás, ainda era um elogio dizer sobre um homem que ele era esperto, instruído, interessado nas questões da mente. Hoje, “erudito” é um termo de abuso desdenhoso.» Não sou um observador deste «fenómeno», mas atrevo-me a dizer que as coisas melhoraram pouco de então para cá. Continua a não se perder uma oportunidade de chamar «erudito» (agora é mais «intelectual», ou «pseudo-intelectual») a quem não se fique pela rama das coisas, obviamente um insulto. Se na época o «fenómeno» se deveria à circunstância de o conhecimento não estar ao alcance de todos, hoje, que está ali ao virar da esquina, custa entender. Comparem-se, por exemplo, os políticos/governantes de hoje aos políticos/governantes das últimas décadas. Não estariam os de ontem melhor preparados que os de hoje? Olhando um pouco para trás, constata-se que o conhecimento actualmente disponível não é proporcional ao conhecimento adquirido — e pouco se evoluiu de então para cá. Por que será?

10 de janeiro de 2017

MÁRIO SOARES. Goste-se, ou não (pessoalmente não apreciei sobretudo a fase final da sua actividade política), morreu um dos principais obreiros da democracia portuguesa, a quem os portugueses devem não ter passado de uma ditadura para outra. Só por isto, que não foi pouco, merece o respeito de quem não vacila entre a democracia e outro regime qualquer, entre a liberdade e a falta dela. Mas se nesta hora também há quem verta lágrimas de ocasião e a hipocrisia atingiu níveis insuportáveis, é chocante que alguns o tentem enlamear com «evidências» de um passado que nunca teve. Acusá-lo do piorio com base em boatos facilmente desmentíveis e «factos» não verificáveis (repito: boatos facilmente desmentíveis e «factos» não verificáveis), é simplesmente indecente. Isto para dizer o mínimo.

5 de janeiro de 2017

OS FACTOS. Não sei se os ciberataques russos a centros vitais da política americana terão, ou não, influenciado o desfecho das Presidenciais de Novembro, muito menos se terão contribuído para a vitória de Trump e consequente derrota de Hillary. Mas há um facto impossível de ignorar: variadíssimas agências governamentais americanas, CIA e NSA à cabeça, reiteraram hoje mesmo, perante o Senado, a existência de ciberataques durante a campanha eleitoral provenientes de altos funcionários do governo russo. Bem sei que os entusiastas de pós-verdades e aldrabices afins, cada vez em maior número, hão-de acreditar na mais mirabolante das histórias que se hão-de inventar para negar a evidência, e em última análise cada um crê no que quer. Mas nem por isso os factos, até ver insubstituíveis, deixam de ser o que são.

2 de dezembro de 2016

NA MORTE DE FIDEL. Vários anos após ter lido tudo o que então tive acesso (Animal Tropical, Trilogia Suja de Havana, O Rei de Havana e O Insaciável Homem-Aranha, que com Carne de Cão constituem o chamado Ciclo de Centro Habana), regresso a Pedro Juan Gutiérrez, agora para ler Corazón Mestizo. Devoradas algumas dezenas de páginas, o livro não desilude, apesar da minha luta constante com o espanhol. Pelo menos mais dois títulos na calha: Carne de Cão e El nido de la serpiente. E agora, para celebrar o espírito da época, vou-me ali a um puro, hecho en Nicaragua, que me garantem pedir meças aos melhores dos melhores.

22 de novembro de 2016

A PÓS-VERDADE. Nunca, como hoje, foi possível verificar os factos de forma tão rápida e eficiente, e nunca, como hoje, os factos valeram tão pouco. Veja-se, por exemplo, Donald Trump. Mentiu descaradamente durante a campanha presidencial, os jornalistas descobriram-lhe a careca, e aconteceu o quê? Rigorosamente nada. Quem o achava assim ou assado não mudou de opinião, e não foram as constantes mentiras logo descobertas que mudaram alguma coisa. Chegámos a um tempo em que uma mentira no Facebook ou uma irrelevância no Twitter têm mais credibilidade e/ou importância que o jornalismo, crucial em democracia por mais falhas que tenha. Chegámos, como agora se diz, à pós-verdade, a um tempo em que as mentiras valem tanto, se não mais, que o melhor jornalismo. Será uma fase passageira. Mas tudo indica que vai deixar estragos irremediáveis.

17 de novembro de 2016

VIRA O DISCO E TOCA O MESMO. Afinal, o chamado Obamacare, que Trump prometeu exterminar (agora diz ser parcialmente aproveitável), não é tão mau como parecia. Afinal, Hillary Clinton, que Trump ameaçou pôr na cadeia, é «boa pessoa», pelo que não moverá uma palha para que isso suceda. Afinal, Barack Obama, até há pouco a encarnação do demónio, «fez coisas maravilhosas durante a sua Administração». Tudo isto uma semana após ser eleito, o que desde logo levanta uma questão: o que pensará destas bruscas — e escassamente fundamentadas — mudanças de opinião quem votou nele? Achará normal? Oxalá me engane, mas desconfio que grande parte dos votantes de Trump serão as primeiras vítimas de Trump.

10 de novembro de 2016

O PIOR DOS REGIMES EXCLUÍDOS TODOS OS OUTROS. Não há, até ver, o mais pequeno sinal de que tenha havido fraude eleitoral, pelo que a vitória de Donald Trump é incontestável. Mas fosse Hillary Clinton a vencer pela margem que Trump venceu, e estaríamos a assistir à contestação dos resultados — como Trump, aliás, ameaçou durante a campanha. Contestação que poderia não ser pacífica, como a que está a ocorrer em alguns pontos do país, mesmo assim lamentável. Não gostam de Donald Trump? Eu também não. Mas é preciso não esquecer que Trump foi eleito democraticamente. Repito: democraticamente. Será, por isso, o meu presidente. Por mais que isso me custe.

26 de outubro de 2016

TAPAR O NARIZ E FAZER A CRUZINHA. Se nada mudar até lá, em Novembro votarei Hillary Clinton, porque Donald Trump está fora de questão. Devo dizer, no entanto, que o farei contrariado, e não acredito que Hillary ponha em prática uma só medida que Bernie Sanders lhe terá imposto em troca do seu apoio. Duplicar o salário mínimo? Medicare aos 55 em vez de 65? Legalização da marijuana em todos os estados? Demagogia, demagogia, demagogia. Isto para já não falar das trapalhadas em que se meteu, e quando digo trapalhadas, desvalorizo muitíssimo. Talvez eu seja pobre a pedir (e escandalize muita gente), mas se Hillary conseguir manter as coisas como estão, já não é pouco.

14 de outubro de 2016

TRÂNSFUGAS. Se Donald Trump é tão mau como muitos republicanos o pintam (e eu nunca duvidei que é), por que não votam eles na candidata do Partido Democrático? A pergunta pode parecer absurda (os fanáticos acharão sempre que os seus são melhores que os outros mesmo quando tudo indica o contrário), mas ainda me parece mais absurdo votar num candidato mau só porque é «dos nossos». Quem põe o país acima da paróquia, só pode, a meu ver, pensar deste modo. Hillary Clinton tem todos os defeitos que quiserem. Pessoalmente, acho que tem muitos. Mas comparada com Trump, até os defeitos são virtudes. A recente descolagem da candidatura de Trump por parte de algumas figuras proeminentes do Partido Republicano, por causa da «conversa de caserna», peca por tardia. Descobriram agora que o sujeito não serve? Tratando-se de quem se trata, isto é, de gente experimentada na política, não se pode dizer que tenham andado distraídos. Restam, portanto, duas hipóteses: ou aproveitaram a ocasião para se desvincularem de uma derrota anunciada, e nesse caso moveu-os o puro instinto de sobrevivência política; ou ganharam, de repente, vergonha na cara, e nesse caso não se percebe por que demoraram tanto.

2 de outubro de 2016

A EUTANÁSIA E A FALTA DE SERIEDADE. A discussão sobre a hipotética legalização da chamada morte assistida (ou eutanásia) mal começou e logo se puseram aos gritos. Gonçalo Portocarrero de Almada, sacerdote católico, escreveu que a eutanásia não se distingue de um homicídio, e que pouco se diferencia da que foi praticada pelos nazis. Vasco Pinto de Magalhães, padre jesuíta, caracterizou os que pretendem pôr termo à vida por tal método como «suicidas obsessivos». Laurinda Alves, jornalista, afirmou, de modo ofensivo, que os defensores de tal prática pretendem empurrar os desesperados que querem atirar-se de uma ponte em vez de procurar impedi-los. Anteontem, José Maria Seabra Duque, subscritor de uma petição contra a legalização da morte assistida, escreveu, no Público, que os defensores da ideia pretendem a «legalização do homicídio». Como é óbvio, as questões que envolvem a morte assistida são mais vastas do que estes senhores nos querem impingir. Não é preciso torturar os miolos para constatar que há fortíssimas razões de quem defende tal prática e fortíssimas razões de quem a rejeita — que devem, umas e outras, ser discutidas com seriedade, respeitando a ideia do outro. Não tenho uma posição definitiva sobre este assunto, mas à medida que vou conhecendo o argumentário de um lado e do outro, sou, tendencialmente, a favor da morte assistida. Mesmo que os cuidados paliativos melhorem substancialmente, como todos defendem e desejam. A minha dúvida não está no princípio, mas na prática e suas variantes — que mudam de país para país, e nalguns casos me deixam dúvidas. Dada a complexidade do assunto, não espero que do debate em curso na sociedade portuguesa se conclua o que quer que seja. Mas espero que seja esclarecedor, de modo a que cada um possa, por si só, concluir o que muito bem achar. E é preciso dizer — talvez sublinhar — que ninguém será obrigado a recorrer à eutanásia caso ela venha a ser legalizada, como alguns mentirosos insinuam. «O Estado deve promover a morte dos cidadãos que queiram pôr termo à sua vida?», pergunta Seabra Duque. Como é óbvio, legalizar a morte assistida não significa promovê-la. O jurista está, portanto, a confundir, deliberadamente, quem está pouco informado, talvez porque lhe faltem argumentos melhores. Como não bastasse, ainda tem o descaramento de dizer que «os portugueses merecem um debate sério». Como se tivesse autoridade para tanto.

29 de setembro de 2016

O DEBATE. Tenho para mim que nos debates cada um vê o que quer ver, e eu não serei excepção. Mas cá vai na mesma o que vi no tão aguardado debate de segunda-feira. Donald Trump não explicou por que não torna pública a sua declaração de rendimentos (como manda a tradição dos presidenciáveis), e ainda adensou as suspeitas de que tem algo a esconder (as autoridades estão a investigar). Justificou o não pagamento dos impostos federais como um acto de inteligência da sua parte, logo quem paga impostos ao Governo só pode ser estúpido. A tentativa de explicar, pela enésima vez, o episódio sobre a nacionalidade do Presidente Obama, que a sua opositora ouviu com indisfarçável deleite, roçou o patético. Sobre a violência racial, mostrou-se preocupado com os casos de Charlotte e Chicago, onde disse, certamente não por acaso, ter negócios, que a violência perturba. Foi incapaz de explorar as (inúmeras) fraquezas da adversária, especialmente quando ela apelidou os apoiantes de Trump de «racistas, sexistas, homofóbicos, xenófobos, islamofóbicos» e espécimes assim, na minha opinião uma burrice de todo o tamanho. Depois gastou grande parte do tempo a justificar, quase sempre mal, as trapalhadas em que se meteu em vez de contra-atacar. Negou, por exemplo, ter apoiado a guerra do Iraque, quando há provas (repito: provas) que demonstram o contrário. Até na resistência física, que segundo ele a adversária não tem, levou por tabela. Já Hillary, por quem não nutro especial simpatia, excedeu as expectativas. Por mérito próprio, mas, sobretudo, à custa do medíocre desempenho do adversário. Mostrou-se segura no essencial (pelo menos passou essa imagem). Foram várias as vezes em que assistiu com gozo evidente às tentativas de Trump explicar o inexplicável — metendo os pés pelas mãos, esbracejando para não se afundar. Acusou o adversário em casos concretos (racismo, xenofobia, misoginia, fuga aos impostos, etc.), enquanto Trump se limitou a fazer-lhe acusações vagas e pouco fundamentadas. Foi, em resumo, um debate que Hillary ganhou em toda linha, devo dizer que com alguma surpresa. Resta saber se mudou, e de que modo, a opinião de quem vota a 8 de Novembro.

25 de setembro de 2016

TOSTÕES E MILHÕES. Concordo com a generalidade das críticas que são feitas ao juiz Carlos Alexandre, mas numa coisa parece-me certo: há sempre uns milhões (expressão dele) para salvar bancos na falência, mas não há uns tostões (novamente expressão dele) para resolver a «gritante falta de meios» no sector da justiça, sobretudo na investigação. Inquirido se a desproporção entre tostões e milhões tem por finalidade fragilizar a capacidade de investigação, o juiz chutou para canto, atribuindo a endémica falta de meios à não menos endémica escassez de recursos. Mas eu chuto à baliza: convém a quem tem poder que a justiça funcione mal. Graças aos meios de que dispõem para se defender (bons advogados, dinheiro), assim têm muitíssimo mais probabilidades de escapar aos crimes de que possam ser acusados, e os exemplos conhecidos são mais que muitos. Haverá, certamente, excepções. Mas de momento não me ocorre nenhuma.

15 de setembro de 2016

AS MELHORAS. Fernando Lima, então assessor do ex-Presidente Cavaco, passou seis anos «no sótão» da Presidência da República «sem qualquer função atribuída» (palavras do próprio). Isto porque «plantou» no Público, a coberto do anonimato e por «indicação superior» (leia-se Cavaco), que o Presidente estaria a ser vigiado pelo Governo Sócrates, o DN descobriu-lhe a careca, e o então Presidente, após uma patética comunicação ao país sobre tão malcheiroso assunto, decidiu retirar-lhe a assessoria de imprensa e mandá-lo literalmente para o sótão (sabia demais para o mandar embora). Ora, este rocambolesco episódio, cuja versão de Lima agora conhecemos (acaba de publicar um livro onde conta a sua versão do que então terá ocorrido), encerra um facto pouco referido: tendo sido afastado do cargo que exercia e remetido para outro mais ou menos inexistente (o próprio Lima admitiu que assim foi), por que se manteve como colaborador de Cavaco por mais seis anos? Dir-me-ão que não ocupava um cargo político para que pudesse demitir-se ou ser demitido. Mas um sujeito que foi muito mais que um mero funcionário, e que não teve problema em viver meio ano à sombra do erário público sem nada que o justificasse, não tem autoridade moral para vir agora armar-se em vítima. Por aquilo que vi citado, o livro agora editado só traz uma novidade, se calhar nem isso: Fernando Lima mantém a mesma coluna vertebral que não teve na altura.

12 de julho de 2016

RESCALDO APÓS O RESCALDO. Agora que toda a gente se desfez em elogios e a poeira parece ter assentado, devo dizer que não dava um tostão por Fernando Santos, até por chegar à selecção com vários jogos de castigo para cumprir numa fase em que o apuramento para o Europeu estava em risco. Como se viu, enganei-me, e aqui me penitencio. Digo mais: embora agora seja fácil dizer isto, fez bem o seleccionador em colocar a fasquia lá em cima ainda antes do início da fase final. Se as coisas podiam não ter corrido bem, qualquer aprendiz de psicólogo também saberá que só colocando a fasquia lá em cima seria possível ultrapassá-la. Depois houve Éder, que ninguém sabe por que foi seleccionado (nem depois do golo que nos valeu o caneco me convenceu), e Renato Sanches, que toda a gente incensou e não foi, para mim, mais que uma vaga promessa. As boas surpresas foram Raphael Guerreiro, um luso-francês até há pouco a jogar numa obscura equipa francesa, e Rui Patrício, que por várias vezes evitou o pior. De resto, Pepe e Ronaldo confirmaram o que deles se esperava. O primeiro porque quando não se mete em sarilhos é um gigante. O segundo por tudo o que já demonstrou, inclusive no jogo da final, onde não foi decisivo dentro do campo (saiu lesionado) mas foi decisivo fora dele. Bem sei que, somado o que tivemos de melhor, não passámos de uma selecção mediana, que se limitou a cumprir sem brilho mas com eficácia. Mas o futebol bonito, que outrora também praticámos, há muito que não é eficaz. Os jogadores e os treinadores de hoje não são contratados para jogar — e fazer jogar — bom futebol, ou um futebol, digamos, vistoso. São contratados para ganhar. Como em tempos disse Mourinho, quem aprecia arte que vá ao ballet. De facto, o futebol ao mais alto nível sacrificou a arte no altar da eficácia. Para grande pena minha, devo dizer.

1 de julho de 2016

COISAS ESTÚPIDAS. «É costume ler por aí» que a Inglaterra é «um exemplo de democracia perfeita», escreveu Pedro Tadeu no DN. E escreveu mais: o actual sistema político inglês «é formalmente tão democrático como o processo que leva os herdeiros de Kim Il Sung a mandarem na Coreia do Norte». Não sei onde o colunista costuma informar-se, mas nunca vi quem afirmasse tal coisa, muito menos de forma que diz recorrente. Exemplos do que fala vinham, por isso, a calhar, até porque não estou certo que os tem. Depois, comparar o regime inglês ao que vigora na Coreia do Norte é muito mais que desonestidade intelectual: é branquear o regime do demente que lá manda. «A democracia inglesa é exemplo para alguém?», pergunta o cronista logo no título. A responda não será tão óbvia como sugere, e até nem me consta que os ingleses se queixem. A não ser que ele ache que os ingleses são estúpidos. O que seria demasiado estúpido.

24 de junho de 2016

JORNALISMO NO CHARCO. O Correio da Manhã (CM) resolveu ameaçar quem, nas redes sociais, espalhou «boatos, calúnias e mentiras» contra o jornal a propósito de Cristiano Ronaldo, suponho que na sequência do microfone que o futebolista arremessou para um charco. Desconheço a gravidade do que foi dito para o jornal ameaçar com os tribunais, mas se chegou onde chegou, presumo que foi grave. Acontece que o CM poderá ter todos os motivos para processar quem o terá difamado, mas não tem autoridade moral para se queixar de boatos, calúnias e mentiras. Afinal, o CM vive disso, por regra impunemente. Não aplaudo o comportamento de Ronaldo — que tem, é bom não esquecer, um longo historial de problemas com o CM, que a generalidade dos media ignorou. Mas que o episódio do microfone foi um atentado à liberdade de imprensa, como diz o CM e o presidente da Comissão da Carteira de Jornalista (que estranhamente não se tem pronunciado em casos bem mais graves), vou ali e já venho. É preciso ver que o repórter que se aproximou de Ronaldo violou os regulamentos para que isso fosse possível, pelo que em matéria de atentados foi o repórter quem começou. E, já agora, violou os regulamentos porquê? Porque teria uma pergunta cujos meios justificassem os fins? Como pudemos ouvir, a pergunta foi sobre nada, pelo que a resposta só poderia ser coisa nenhuma. Um microfone afocinhado na lama no fundo de um charco acabou, assim, por se tornar uma caricatura, a meu ver bastante benévola, do «jornalismo» que se pratica no Correio da Manhã.

16 de junho de 2016

CONFUNDIR O CU COM AS CALÇAS. O massacre de Orlando levanta dois problemas óbvios: a venda de armas, e o terrorismo islâmico. Do primeiro, fala-se abertamente. Do segundo, ignora-se até o impossível de ignorar. Porque o primeiro é um assunto mais ou menos popular (e mais ou menos consensual), e o segundo coloca o dedo em dois pontos hipersensíveis: a existência do islão radical, sempre pronto a matar; e a questão da homossexualidade, que não tem lugar nessa visão do islão — e por isso deve ser exterminada. Mas parece que a matança da Florida levantou um terceiro problema, menos óbvio e raramente discutido: a existência de homossexuais muçulmanos, cuja denúncia ou «saída do armário» pagam com a vida. É um bom sinal. Com seria um bom sinal discutir a sério o papel da mulher no islão (os crimes de honra, a homofobia, o machismo generalizado), outro assunto politicamente incorrecto de que os campeões da modernidade fogem como o diabo da cruz. A questão da venda de armas nos EUA deve ser encarada a sério? Com certeza que deve, embora esteja por demonstrar a relação causa-efeito, isto é, que a proibição de vender armas contribuiria para a redução dos crimes de sangue — e é bom lembrar que não há lei que impeça que se cometam massacres como o de Orlando. Mas o islamismo radical tem, igualmente, de ser encarado de frente, até porque neste caso está amplamente demonstrada a relação causa-efeito. Dir-me-ão que a proliferação de armas na sociedade civil mata mais gente que o islão radical, e contra factos não há nada a dizer. Só que discutir as armas em vez do islão radical a propósito da matança de Orlando, é confundir o acessório com o essencial. E o essencial neste caso é que o islão radical continua a matar perante o faz-de-conta de uma larga camada de bem-pensantes, que recusam trocar as reconfortantes certezas em que vivem pela mais cruel evidência.

3 de junho de 2016

PARECE QUE VALE TUDO. Lembro-me de um jornalista ter confrontado Donald Trump com um facto aparentemente embaraçoso envolvendo um dos seus muitos negócios e de o multimilionário ter respondido: «It's business.» Por momentos, o jornalista embatucou, mas logo passou adiante — como achasse que a pergunta estava respondida, e de modo irrefutável. Ora, a resposta de Trump não me convenceu, e a satisfação (ou resignação, não percebi bem) do jornalista até me surpreendeu. Vale tudo nos negócios? Devo dizer que não me choca por aí além o vale tudo nos negócios quando se trata de alguém que não é candidato a nada. Mas como não questionar quem é candidato a um cargo político que é suspeito de nas suas actividades profissionais ter desempenhos eticamente reprováveis? Imagino que Donald Trump está cheio destes casos, e até há suspeitas de casos piores. Mas, a avaliar pelo encolher de ombros do jornalista e pelo silêncio sepulcral que o episódio causou, isto não conta para nada. Os negócios tornaram-se uma espécie de religião que ninguém questiona, muito menos descrê. Muitíssimo apropriada uma passagem de Claudio Magris em A História Não Acabou: «O empresário é personagem de todo o respeito e de central importância no âmbito da colectividade que lhe é própria; torna-se uma figura ridícula (...) se for proposto como modelo universal humano.» É onde estamos.

25 de maio de 2016

PROGNÓSTICOS A POSTERIORI. Consta que ninguém do Partido Republicano prestou a devida atenção ao «fenómeno» Trump, e o resultado está à vista: é tarde para o travar. A explicação é plausível. Mas a verdade é que não me lembro de ver ninguém (politólogo ou aparentado, independente ou politicamente comprometido) avisar atempadamente para o perigo Trump, como alguns agora tentam fazer crer, embora sem darem um único exemplo. O que se viu até há pouco foi a ausência total de qualquer análise a sério sobre a candidatura do multimilionário, a meu ver muito por culpa dos media ditos de referência, que levaram demasiado tempo a levá-lo a sério. Ninguém, absolutamente ninguém, previu que Trump chegasse onde chegou, provavelmente a começar pelo próprio. Os especialistas (assim ditos para simplificar) que agora andam por aí a dar raspanetes aos supostos incautos fazem-me lembrar o célebre futebolista que, à cautela, só fazia prognósticos no final do jogo. É que pior do que não ser capaz de acertar um prognóstico, por definição antes do jogo, só mesmo agora dizer-se que se fez (e acertou) mas ninguém sabe onde nem quando. Mas imaginemos que se tem prestado a devida atenção a Donald Trump. Teria sido diferente? Ter-se-ia evitado que chegasse onde chegou? Como não sucedeu, impossível saber. Há, no entanto, um facto que se vai demonstrando um pouco por todo o lado: apesar da proliferação de especialistas, de quem é legítimo esperar-se prognósticos mais assertivos, a política continua a ser muito imprevisível. Até para os melhores.

17 de maio de 2016

O CORREIO DA MANHÃ SEMPRE A ENOJAR. Discordo com frequência do que escreve Daniel Oliveira, como se pode ver no blogue que mantenho desde 2002. Mas subscrevo o que disse no Expresso sobre o caso Fernanda Câncio vs Correio da Manhã. Devo acrescentar que também discordo, ainda com mais frequência, de Fernanda Câncio, e repetir que respeito algumas pessoas que colaboram com o Correio da Manhã e com a Correio da Manhã TV. Dito isto, insisto no que já disse: o «jornalismo» que lá se pratica causa-me nojo. Desde o esquema que encontraram para ter acesso ao processo que envolve Sócrates e companhia (dois jornalistas constituíram-se assistentes no processo só para terem acesso a informação privilegiada, que depois divulgam violando impunemente a lei), à insistência em linchar na praça pública quem não é, segundo a justiça, suspeito de coisa nenhuma (o caso de Fernanda Câncio, com a agravante de contar com a escandalosa conivência da mesmíssima justiça), passando pela arrogância de quem lá manda (bem patente numa recente entrevista ao i). O Correio da Manhã e derivados vendem às mãos-cheias, até às elites? Também os livros e as músicas de alguns vendem muitíssimo, até às elites, e nem por isso deixam de ser a merda que são. Votos de que os que hoje aplaudem as abjecções que nos querem vender como jornalismo não sejam, amanhã, vítimas dele.

10 de maio de 2016

CONCORDAR PORQUE SIM. Deixei de prestar atenção às razões dos que se opõem ao Acordo Ortográfico de 1990 (daqui em diante o Acordo). Porque julgo conhecê-las todas, e quem as conhece sabe que não são poucas. Já a favor, mal se publica algo vou logo ver, sempre na esperança de descobrir um argumento que me tenha escapado ou algum novo que mereça atenção. Foi o que fiz com o texto de Bacelar Gouveia, no DN da semana passada. Sem surpresa, nada que já não tenha sido dito. O alfabeto aumentou de 23 para 26 letras, congratula-se o professor. Depois, «é muito boa ideia não escrever letras que não se pronunciam, até por uma razão de economia de esforços». Como «há já vários anos que a nova ortografia é utilizada nos manuais e no ensino, e há já algumas gerações de alunos que aprenderam o português na nova ortografia (...), o pai ou a mãe poderem aprender com os seus filhos (...) a nova ortografia portuguesa!», escreveu Bacelar Gouveia, exclamação incluída. E considerou «legítimas e boas as suas finalidades» (que não enunciou), «bem como muito lógicas as suas soluções» (nem um exemplo para amostra). Terminou a arenga desta maneira: «(...) as queixas, os queixumes, as lamúrias, os remoques ou as piadas vêm basicamente de dois setores: os que são mais velhos, isso se compreendendo pela sua maior dificuldade e resistência à mudança; também de uma certa elite pensante que erigiu o Acordo Ortográfico a tema e moda de discussão fundamental, à falta de capacidade para terçar armas por coisas mais substanciais que verdadeiramente interessam a Portugal». Espreitei a página dele na internet, e fiquei esmagado com tão impressionante currículo. Logo à entrada, fiquei a saber que o «cidadão empenhado» está receptivo a todos os contributos e sugestões que queiram enviar-lhe, pois acredita «que é no espaço público do diálogo e dos valores que podemos construir um mundo melhor». Assim sendo, cá vai uma sugestão: que tal terçar armas em defesa do Acordo com argumentos a sério? Talvez os opositores da pantomina sejam «basicamente» os «mais velhos» (por mera resistência à mudança) e uma «certa elite» (presumo que ociosa ou ignorante). Mas o cidadão empenhado há-de ter reparado que uns e outros o fazem com argumentos, dezenas deles. Já o professor, nem um para amostra.

6 de maio de 2016

VELHICE (4). Até uma certa idade, averigua-se a qualidade do vinho. A partir de uma certa idade, averigua-se a qualidade da água.